Quem é o casal com primeiro homem trans a ter um filho na rede pública de saúde da PB
Homem trans dá à luz primeiro bebê na rede pública estadual da PB Daniel Valentim e Gisele Castro construíram juntos o caminho até a chegada de Iara, filh...
Homem trans dá à luz primeiro bebê na rede pública estadual da PB Daniel Valentim e Gisele Castro construíram juntos o caminho até a chegada de Iara, filha do casal e primeiro bebê gerado por um homem trans na rede pública estadual de saúde da Paraíba. Daniel é estudante de agronomia e Gisele, professora universitária e veterinária. Os dois são pessoas trans e vivem em Esperança, no Agreste paraibano, mas a menina nasceu no Hospital da Mulher, em João Pessoa. Para que a gravidez fosse possível, Daniel precisou interromper a terapia hormonal e passar por uma série de etapas até o nascimento da filha. O processo, iniciado anos antes da chegada de Iara, envolveu mudanças na rotina do casal e desafios relacionados ao acesso à saúde. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp O g1 reuniu informações sobre a trajetória de Daniel e Gisele, desde o início do planejamento para ter um filho até os momentos que marcaram a chegada de Iara. LEIA TAMBÉM: 'Família tem a ver com amor e respeito', diz esposa de homem trans que deu à luz pela primeira vez em hospital estadual da Paraíba O sonho do casal Gisele e Daniel na hora do parto Divulgação/Governo da Paraíba O casal já havia tentado ter um filho em outra oportunidade, ainda em 2022. Naquele período, porém, a interrupção da terapia hormonal provocou mudanças físicas em Daniel Valentim que intensificaram a disforia de gênero e fizeram com que os dois retomassem o tratamento e adiassem o plano de aumentar a família. “Eu não aguentava mais por conta da disforia. Minha barba tinha caído, já não tinha quase nenhum pelo no rosto. Então, meu peito crescia, meu quadril ficou mais largo, minha cintura mais fina, e isso me incomodava muito. Eu me sentia como antes da transição, não conseguia me olhar no espelho e reconhecer que meu corpo refletia quem eu sou por dentro. E Gisele, a mesma coisa: os pelos voltaram a crescer nela, o rosto dela ficou menos feminilizado”, disse Daniel. 🔎A disforia de gênero é o sofrimento ou desconforto que algumas pessoas podem sentir quando há uma diferença entre o gênero com o qual se identificam e características do corpo ou o gênero atribuído ao nascer. Esse sentimento pode estar relacionado a aspectos físicos, sociais ou à forma como a pessoa é percebida pelos outros. Nem todas as pessoas trans vivenciam disforia de gênero, e a experiência varia de pessoa para pessoa. Depois desse período, três anos mais tarde, o casal conseguiu engravidar. Gisele conta que a confirmação da gravidez veio de uma forma inesperada e que não imaginava que Daniel conseguiria engravidar tão rapidamente. "A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. Só que aí teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi à farmácia e fez. Eu estava trabalhando, ele fez, e aí deu positivo. Aí ele pegou, comprou uma fralda, embrulhou a fralda como um presente, colou o exame de urina e fez uma surpresa, falou que tinha um presente para mim. Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Então, foi uma emoção muito grande. Eu não esperava que ele fosse engravidar tão cedo", explicou. Daniel iniciou o pré-natal em Campina Grande, mas o casal passou a buscar uma unidade que oferecesse um ambiente de maior acolhimento e segurança para o nascimento de Iara. Foi nesse processo que eles conheceram o Hospital da Mulher, em João Pessoa, onde a bebê nasceu em junho de 2026. A escolha pela unidade também levou em consideração o atendimento oferecido a pessoas trans. O casal descobriu que o hospital realizava cirurgias de mastectomia em homens trans, o que indicava uma equipe preparada para acolher esse público. A experiência positiva relatada por uma amiga também ajudou na decisão pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano. Com o apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, Daniel conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação. "Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou o pai de Iara. Os desafios Daniel e Gisele durante gestação Gisele Castro/Arquivo pessoal Durante a gestação, Daniel Valentim recebeu o diagnóstico de trombose, o que fez com que a gravidez fosse considerada de risco. Além da preocupação com a saúde, ele relata que as mudanças físicas provocadas pela gestação e pela interrupção da terapia hormonal intensificaram a disforia de gênero, trazendo impactos emocionais ao longo do período. “Eu não conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia, porque cresceu bastante, e chegou o momento da situação em que a barriga estava grande e eu não conseguia mais sair de casa pelos olhares”, disse o estudante de agronomia. Com a gravidez e a pausa no uso dos hormônios, características físicas começaram a se modificar, o que gerou desconforto para Daniel. Ele conta que encontrava forças ao lembrar que as mudanças faziam parte do caminho para a chegada da filha. “Quando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: ‘é pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso’. Então, até me emociono quando eu falo essas coisas”, relatou. Gisele Castro também precisou interromper a terapia hormonal após mais de 15 anos de tratamento. Segundo ela, as alterações provocadas pelo uso dos hormônios podem ser acompanhadas e revertidas com acompanhamento médico. “O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter", explicou. Além das mudanças físicas, Daniel relata que enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. Segundo ele, os olhares de curiosidade e preconceito em espaços públicos marcaram o período e evidenciaram os desafios de viver uma gravidez como homem trans. Daniel também relata que enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. Segundo ele, olhares de curiosidade e preconceito em espaços públicos marcaram esse período e evidenciaram os desafios vividos por um homem trans gestante. “Eu me recordo de uma situação em que eu fui comprar pão e a barriga já estava bem aparente. E aí a moça da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande”, disse. Para Gisele, compartilhar a história da família também é uma forma de mostrar que diferentes configurações familiares podem oferecer amor, cuidado e segurança para uma criança. Ela afirma que a construção de uma família está ligada ao respeito e ao vínculo entre as pessoas. "Então, às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família", finalizou. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba